TRÓIA

No embalo do furor mundial, fui assisti-lo com o intuito de testemunhar um belo espetáculo cinematográfico. Já feliz de antemão – a Má descolara os ingressos da Superinteressante, que tem o filme como capa –, bastava pegar minha pipoquinha e minha coquinha no balcão e sentar na confortável poltrona do Iguatemi.
Começa o filme. Belas imagens, narrativas buscando o épico, trilha sonora envolvente... Pronto! Wolfgang Petersen acabara de apresentar-me sua "Tróia".
Desde criança que sou fascinado pela mitologia grega. Fora o fato de ter tido uma linda professora me "incentivando" a gostar de História, a contribuição dos gregos para o conhecimento do mundo e, principalmente, do ser humano é para nós fundamental. E partindo desse pressuposto, óbvio que a estória da Guerra de Tróia é uma das mais lembradas. Quem nunca ouviu falar do "cavalo de Tróia"? Quem nunca utilizou a expressão "presente de grego" quando ficou puto com aquela meia bege que desembrulhou do pacote pixulé que ganhou do tio de aniversário? E da referência estética de "Helena de Tróia", a nora que minha mãe pediu a Deus? Pois é! Veio tudo de lá, da mitologia grega, do mito da cidade de Tróia.
E talvez com a intenção de reavivar em nossas mentes todos esses conceitos – além de amealhar alguns outros milhões de doletas –, Petersen resolveu filmar a estória, chamando para o elenco figuras tão mitológicas quanto o tema de seu filme, como Brad Pitt e Peter O'Toole, além da beleza da modelo alemã Diane Kruger, que não posso deixar passar batida. O detalhe é que se a estória fosse contada ipsis litteris do que Homero escreveu em sua "Ilíada", o diretor alemão, além de ter que descartar qualquer hipótese de final feliz, teria de fazer de Brad Pitt um herói homossexual, já que seu Aquiles assim o era. Mas David Benioff, escalado para aparar as arestas homéricas, tratou de deixar o filme palatável aos padrões hollywoodianos, transformando, por exemplo, o então namoradinho de Aquiles, Pátroclo, em um simples "primo". Fora outras "adaptações" que não poderei aqui contar, já que estou falando do final escolhido, que é diferente do que rolou de fato neste episódio da Ilíada.
Acho que nem precisaria contar o argumento do filme por ser uma das mais conhecidas estórias da humanidade, mas já que estou aqui, custa nada, né?
Pois bem. Páris, príncipe alvinegro troiano, ainda hóspede do rei Menelau em sua visita, junto com o irmão Heitor, a Esparta, num ato de pura crocodilagem, resolve arrastar para si a linda esposa do rei, Helena, levando-a para seu confortável cafofo troiano. Por mais que Heitor, primogênito do rei Príamo, ótimo guerreiro, bom esposo e pai, tenha tentado dissuadir seu irmão a não fazer aquela cagada, o negócio já tava fedendo e não havia mais gleid sany que resolvesse o budum, mesmo porque Menelau, com dores em seus cornos, apelou para Agamenon, seu irmão, rei de Mecenas e dono das camisas gregas naqueles tempos, para, junto com Ulisses, rei de Ítaca, e do ambíguo Aquiles, fazer um bonde e quebrar a banca e tocar fogo em Tróia e em seus traíras. Depois de cerca de dez anos de guerra sem que os invasores conseguissem transpor os muros de Tróia, Ulisses tem a idéia genial: dissimular uma retirada e deixar como presente aos troianos – só eles mesmo para acreditar que poderia haver algum presente depois de tanta carnificina – um enorme cavalo de madeira recheado de gregos sedentos, suados e cheios de amor pra dar (ui!). Príamo, acatando o pitaco do imbecil do conselheiro espiritual de Tróia, bota pra dentro a porra do cavalo e o resto é história, literalmente.
Benioff reconta com maestria esses capítulos de Ilíada. Talvez pudesse aqui meter o pau na criatividade do roteirista por causa da quizumba mitológica que impôs ou, ainda, por ter optado em forçar às vezes um caráter exclusivamente maniqueísta em seus personagens, já que todos sabemos que os mitos gregos foram escritos e reescritos com o intuito de nós, humanos, entendermos a nós mesmos por meio das complexas e dialéticas análises narrativas emprestadas pelos poetas e escritores, dentre os quais Homero é um dos que mais se destacam. O homem, por assim dizer, é factível, imperfeito, possui fraquezas e virtudes, lados bom e ruim. Mas o filme é bom mesmo com essas, digamos, imperfeições. Hollywood, aliás, não gosta muito da mistureba – alguém falou em verossimilhança? – entre suas ficções e a realidade nua e crua (vide o caso da censura ao aguardadíssimo Farenheitt 9/11, de Michael Moore), restando a "Tróia", por isso, ter que conviver com esses personagens chapados, superficiais, estanques em sua maioria. Mas isso tudo, confesso, é mera punhetação, pois o conjunto da obra de Petersen é muito bom.
Quanto à interpretação em si, Brad Pitt construiu muito bem seu Aquiles, que é a exceção ao falado maniqueísmo, por ter dado o ator ao seu personagem a certa relativização que a história requer. Acima da média. Eric Bana (Heitor), Orlando Bloom (Páris), Brendan Gleeson (Menelau) e Brian Cox (Agamenon) também estão muito bem, assim como o piteuzinho Diane Kruger (Helena), mais que desejável. Mas tenho que fazer uma "menção honrosa" ao grande Peter O'Toole pelo fantástico Príamo que nos mostrou. O diálogo que trava com Aquiles, seqüencial à ensaiadíssima treta deste com Heitor, é a melhor cena do filme. O'Toole, definitivamente, deu alma ao bom filme de Petersen, completando-o. Algo como a folhinha de hortelã carinhosamente colocada por sobre o maravilhoso semifreddo de chocolate meio amargo com chocolate branco.
E depois de comentar que os cenários e efeitos visuais chegam a ser inenarráveis, de tão condizentes com os registros históricos, tenho que ressaltar meu único protesto à obra: a trilha sonora de James Horner está MUITO aquém do todo. Poderia ser mais criativa, mais estudada, trabalhada, como o resto da obra, aliás. Mas não: preferiu-se o óbvio, ora utilizando-se daquelas orquestrações mais batidas que a barata da vizinha, ora colocando uma mulher (se bem que tenho cá com meus botões que fizeram mesmo foi um loop do Nando Reis cantando o refrão de "Me Diga") para ficar gemendo nos momentos, digamos, mais sensíveis do filme, igualzinho ao que fizeram com a trilha de "Gladiador". Essa infeliz repetição não deu pra engolir.
De resto, digo que levando-se em conta a moda da indústria cinematográfica de levar estórias épicas às telas, achei que "Tróia" é bem melhor que as andanças do general Maximus contadas por Ridley Scott em 2000 – além de ressaltar que a seqüência da invasão dos gregos à praia troiana é tão sufocante quanto o "Dia D" traçado por Spielberg no início de "O Resgate do Soldado Ryan".
Não percam de jeito maneira, pois o filme de Wolfgang Petersen, tal qual eu torcia ainda no balcão de guloseimas, é realmente um belo espetáculo!
Até.
Escrito por Mahabharata às 15h48
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